uma vez ao ano essa gata vem me ver. fora essas duas semanas que ela passa por aqui, costuma vê-la apenas pelos muros, nos vizinhos e se atracando com outra felina que costuma rondar o fundo das casas dessa rua.
tão longe que nem posso tocá-la. a chamo por horas. finge que não me vê. já faz cinco anos e todo ano é a mesma coisa. todo janeiro é igual. a incerteza, a chuva, o desespero e a gata.caramelo, manchas pretas e peito branco. meus dedos somem na sua pelagem gorda e fina. não há nenhum nó. nenhuma falha. os bigodes imensamente longos vêm me cheirar os cabelos todas as noites.
tímida ronrona. quase não faz barulho. pede um carinho e retribuo na hora com uma boa coçadinha entre as orelhas miúdas. aqueles olhos amarelos e grandes se fecham.logo deita no chão, vira-se com a barriga para o ar. como se estivesse feliz em me ver, como que quase só ela entendesse. mia baixinho e adormece segura. calma e comprida.
à noite, enquanto os outros gatos se espreguiçam para mais um velar de espreita, ela procura um aconchego na minha cama desfeita por dias, encosta nas pernas de quem me acompanha e faz dali um repouso profundo.
inevitavelmente, assim como essas páginas que se escolhem para serem escritas, as três e meia da manhã (faz uma hora que consegui pegar no sono), me acorda correndo pelo quarto e faz entender que quer a janela aberta. o faço. aguarda no peitoril pela minha companhia. convida para uma aventura no final da madrugada. pula no telhado e olha apenas uma vez para trás.
confirma minha vida, relata meu conforme e vai caminhando em passos leves, porém não menos apressados, do mesmo jeito que veio.