quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

cama de gato

uma vez ao ano essa gata vem me ver. fora essas duas semanas que ela passa por aqui, costuma vê-la apenas pelos muros, nos vizinhos e se atracando com outra felina que costuma rondar o fundo das casas dessa rua.

tão longe que nem posso tocá-la. a chamo por horas. finge que não me vê. já faz cinco anos e todo ano é a mesma coisa. todo janeiro é igual. a incerteza, a chuva, o desespero e a gata.caramelo, manchas pretas e peito branco. meus dedos somem na sua pelagem gorda e fina. não há nenhum nó. nenhuma falha. os bigodes imensamente longos vêm me cheirar os cabelos todas as noites.

tímida ronrona. quase não faz barulho. pede um carinho e retribuo na hora com uma boa coçadinha entre as orelhas miúdas. aqueles olhos amarelos e grandes se fecham.logo deita no chão, vira-se com a barriga para o ar. como se estivesse feliz em me ver, como que quase só ela entendesse. mia baixinho e adormece segura. calma e comprida.

à noite, enquanto os outros gatos se espreguiçam para mais um velar de espreita, ela procura um aconchego na minha cama desfeita por dias, encosta nas pernas de quem me acompanha e faz dali um repouso profundo.

inevitavelmente, assim como essas páginas que se escolhem para serem escritas, as três e meia da manhã (faz uma hora que consegui pegar no sono), me acorda correndo pelo quarto e faz entender que quer a janela aberta. o faço. aguarda no peitoril pela minha companhia. convida para uma aventura no final da madrugada. pula no telhado e olha apenas uma vez para trás.

confirma minha vida, relata meu conforme e vai caminhando em passos leves, porém não menos apressados, do mesmo jeito que veio.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

construindo personagens escrotos

lá pelas seis da tarde, desceram roberto e fabio no ônibus, um domingo bem fresco. pararam no bar ali na esquina. a avenida vazia estava apenas suja e não lembrava nada do carnaval dos dias anteriores...nada...

fabio pediu uma brahama e encarou bem roberto com cara de feliz:
- você me chamou aqui para beber logo no domingo, muito bode. tá com algum problema?
- não nenhum. só umas dúvidas...
- sobre?
- a valéria. completamente louca.
- sei...
- to aqui pensando. não sei onde eu a conheci. não importa. ela queimou todos os livros do roberto freire e disse que a culpa era minha.
- hum...sua...sei
- saímos depois daquela quarta, tinha umas coisas bacanas na casa dela. comi direitinho. teve até café da manhã. acordei depois do almoço e caí fora.
- e o roberto freire?
- calma resolvi ligar pra ela ontem
- ixi já sei! conta comigo: foram quinze dias, cara!
- como assim, quinze dias?
- você demorou exatos quinze dias
- sei lá viu...

passaram por eles o caminhão, senhoras e o silêncio curto.

- ela atendeu o telefone e disse: "você é um merda. você é um covarde de merda. jogou baixo, bando de bosta. sujo. covarde de bosta". eu tentei até interromper, mas ela gritou bem nos meus ouvidos: "seu merrrrda". fiquei meio sem reação, saca?
- loco.
- na realidade não entendi nada. ela começou a falar que tinha queimado o roberto freire e eu pensando 'essa mina tá doida de pó'. ela falava assim: "queimei todos os livros, inclusive o travesti, que lembra a porra do teu irmão". caralho, mina doida. lembrava do viado do meu irmão.
- foda hein?!
- é cara, não entendi nada, marquei de ir lá logo mais, mas acho que vou ficar aqui contigo, uma breja.
- hum vai lá meu. vai que ela queima o bukoswiki. e ainda tem aquele do kerouac. nossa...
- é pode ser...

domingo, 27 de julho de 2008

aqui

teus olhos miúdos quase se perdem na face
quando sorriem, os meus param hipnotizados pelo momento
do riso que vira grito mudo, olhos cerrados e boca aberta
uma, duas cambalhotas
me vejo esparramada na cama, gargalhando teu zelo
respiro fundo e recupero o fôlego
as mãos frias, brincadeira sutil. moleque

e eu que achei que nunca mais retornaria aqui
eu temi não ter por que voltar
eu decidi ir
cá estou eu indo embora sem pressa para voltar....

quarta-feira, 16 de abril de 2008

para saber

são quatro e meia da manhã
e
eu
nunca tive tanta
certeza.
quanto será honestamente impossível
mirar um
caleidóscópio teu
em mim

teu em mim

quarta-feira, 26 de março de 2008

um pouco mais de mim, antes que comecem as outras histórias...

quando me botaram entre os escritores, da confusão da mente eu apenas distingui um pergunta: por que d'eu não saber beber whisky?

eram três que me lembravam outros três. entre os presentes o mais velho e pornográfico-social que me lembrava o de passado heróico; o que melhor distribuía as palavras e era criativamente inteligente me lembrava o mestre; e o romântico, bruto e dono dos meus ouvidos me lembrava o dono dos meus olhos. incrível.

e eu assim, observando os três com whisky na mão. um com gelo, o outro cowboy e o último vazio. era tácita a embriaguez deles, era linda. por que diabos eu não aprendi a beber whisky?

eu os senti se olhando, eu vi o tesão de viver amando as palavras, fodendo os sentimentos e fingindo que nada acontece. apenas o whisky, os olhares e aquela música.

eu ainda bebo do teu....

domingo, 24 de fevereiro de 2008

eu preciso te contar que você não me conhece

procurei nas falas de outros contadores a vontade do nosso caso e percebi inútil o relato de segundos, as coincidências de terceiros e coloquei então das minhas vontades em primeiro:

de querer achar um olhar na multidão. de gritar meu superego com todas as razões. de querer respirar o que há de vir por dentro de vós. de sentir cada ponto meu desmanchando pela manhã. de querer as aves velando nossa confissão. de ter teu colo um profundo vazio seguro para meus pensamentos. de querer aquele maldito caixote parati. caminhar pelas pedras molhadas. rodoviárias bêbadas de carnaval. vento úmido quente das primeiras horas. de saber que nunca mais se repetirá dessa forma. de me agarrar ao único. de pisar no futuro. de me sentir nua e querer assim sempre. nus. por mais que as verdades existam pouco.

eu preciso te contar que você não me conhece. e que vais sumir apenas com uma parte dolorida de mim e eu carregarei uma parte indecifrável de ti.

e eu me sinto tão bem com ela. muito bem. eu até durmo se você sumir, mas não me importo com tudo...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

á puta do meu psiquiatra...

desde de criança, assim bem pequeno, o doutor sempre era o populista entre os amigos.

no futebol, na bola de gude, policia e ladrão, não importava. agradava a tudo e a todos e lhes devolvia com a sabedoria física de quem controla a cabeça das pessoas, sorrisos falsos, agonizantes e satisfeitos por aí.

não teve dificuldades durante seu crescimento. torno-se homem, pai de família e doutor, seguindo os preceitos de mao, hitler e bush, populistas tão tardiamente impopulares. apostou milhões nisso, creia no caráter.

sua profissão?

chegava as 11:00 da manhã no hospital público e saía as 13:00.

logo que entrava, uma multidão de mulheres mecânicas o esperava para a consulta.

atrás da mesa verde descascada sem jaleco, satisfazia quem fosse receitando papéis azuis, famosos pelo seu desempenho criativo de felicidade.

e assim seguia completo por conseguir colocar um sorriso plástico nos rostos das mulheres assombradas pelo pânico geral e com suas serotoninas desajustadas....