domingo, 4 de novembro de 2007

qual a capital do peru?

nós estávamos no bar não mais que uma hora. catarina é muito atrapalhada, na verdade, ela gosta de ser atrapalhada. disse que tinha que ir embora tomar banho. estava fedida e devia por o vestido e sair novamente.
catarina tomava cerveja e eu pinga. ela sempre reclamava do cheiro de álcool e eu sugeri um fumo antes que ela fosse embora.
estava enrolando, assim toda em flocos, vinha naqueles potinhos de filmes de máquinas fotográficas antigas, redondos e pretos.
enquanto catarina pedia e repetia a conta umas dez mil vezes para o garçom, enrolei ali mesmo um dedo-de-moça gordinha, ótimo para o final da tarde. lógico que inverti o lado e a cola ficou para fora. é de praxe.
a rua dos bares, popular e putas ficou pra trás e logo já ascendi. catarina sempre ficava muda, hoje estava falante e comentou que seu pé havia lhe deixado em paz. nada de se sobressair a viagem de sempre.
fomos contornando o quarteirão, encontramos dois policias indiferentes e demos na rua principal novamente. mais bares e pessoas correndo.
antes de atravessar. catarina já tinha deixado metade do cigarro pra mim. era impressionante como aquele cheiro tomava conta. meu terno parecia feito de fumaça. moldava-se tão bem. acolhia.
catarina brincava com aquele guarda-chuva enorme quando três crianças chegaram. sabe aquelas das balas? o loirinho disse assim:
- moço, qual a capital do peru?
- la paz
- lima. compra uma bala para sua mina?
foi aí que catarina gritou reclamando da rima do menino e disse não ser minha.
deram de ombros e continuaram nos seguindo. o outro neguinho que estava junto disparou a falar. pediu mais umas vezes pra eu comprar as malditas balas e emendou um:
- ô tio, deixa eu dá um dois?
...
mas que caralho aquelas crianças estavam falando? eu cheguei a achar que era loucura, mas olhei bem a minha volta e eram três mesmo. o loirinho rimador, o neguinho falante e espevitado e uma menina de cabelo louro para cima com cara de assustada. ela não tirava os olhos de catarina.
o cigarro já estava pra lá da metade e eu fui levando a conversa com os três até a ruazinha tranqüila onde ia ficar catarina muda. sei lá porque, talvez tivesse me questionando sobre a razão de tudo aquilo, perguntei ao neguinho o que ganharia se desse minha ponta à ele.
- deus dá em dobro tio.
deus dá em dobro? mas que porra é essa? o moleque colocou deus no meio da conversa e eu fiquei tão puto, que gritei com ele e já enfiei nas fuças a ponta que restava. saí andando com catarina sem olhar para trás.
- quantos anos eles tinham?
- sei lá, uns sete...e sabiam qual era a capital do peru.

1 suas firulas:

francine costanti. disse...

esse texto está bárbaro!
me senti meio personagem dele.